Entrevista à Alterwords
publicado em Geral a 14 de Fevereiro de 2010
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Carla Ribeiro é a simpática e dinâmica coordenadora dessa revista. Como divulguei anteriormente, a Carla debruçou-se recentemente sobre O Décimo Terceiro Poder, escrevendo uma crítica que publicou online no Blog As Leituras do Corvo e que agora foi inserida na AlterWords. Convidou-me ainda para a minha mais recente entrevista, que transcrevo aqui, na qual resumo o que tem se passado nos últimos sete anos, o que vem aí e alguns conselhos para quem procura uma próxima leitura ou decidiu experimentar a escrita:

 

Entrevista com…

Madalena Santos

 

, escritoraHá já algum tempo que ouvi falar pela primeira vez nos livros desta autora. E, como devem ter reparado na secção dos livros, finalmente tive a oportunidade de ler o seu primeiro livro. E foi por isso que achei interessante fazer umas perguntas a esta simpática autora e conhecê-la um pouco melhor. Curiosos? Venham daí.

 

1. Quando soubeste que ias publicar um livro pela primeira vez, qual foi a sensação?

No minuto anterior ao telefonema, a questão estava enterrada num canto qualquer da memória, pois convencera-me de que, se tivesse uma resposta da Editora, chegaria dali a um ou dois anos… Mas afinal nem um punhado de meses se completou! Recebi a notícia estava eu sozinha num café e por muito pouco não agarrei a empregada de mesa para partilhar a notícia. Foi arrebatador, especialmente com a enorme surpresa: só tinha enviado uma única carta, mais por sugestão da família do que propriamente por crença no meu trabalho, visto que me tinha habituado, havia já alguns anos, à rotina de escrever com afinco e, no final, atirar as centenas de páginas para a estante e avançar para o projecto seguinte. Não tinha materializado a ideia de passar para o nível seguinte.
Depois… Constrangimento. Os meus textos publicados? A estranheza haveria de passar e hoje prepondera o orgulho no resultado de tantas horas mergulhada nas Terras de Corza. E, sempre que um novo volume sai da tipografia, continuo a vibrar.
 

2. As Terras de Corza são um universo bastante complexo. Em que te inspiraste para o criar?

As Terras de Corza são o produto de muito tempo com uma caneta na mão e um caderno em branco sobre a secretária. Em apontamentos, tenho muita informação que vai além do que transmiti nos livros, para que todos os detalhes divulgados tenham uma base sólida, coerente e convincente. A intenção primordial é criar um mundo completo, realista, sem deixar pontas por onde o leitor mais exigente possa pegar, cuja ordem tenha pés e cabeça, exigindo para isso muitos dias em que simplesmente exploro essa parte e não avanço para o texto que os livros apresentam. Com investigação a enriquecer a estruturação do quotidiano de cada época que escolhi para pano de fundo dos tomos – Idade Média, queda do Absolutismo, início da Industrialização e, por fim, um período primitivo que cruza as tribos europeias com o cenário da Monarquia de Roma (anterior à República e que hoje é mais lendária do que provada) -, a grande inspiração é, de facto, a História, em particular a da Europa do Sul. De resto, é devaneio e conjugação de ideias.
 

3. Tens algumas personagens com que te identifiques particularmente?

Não tenho o hábito de transparecer alguém que conheça – inclusive eu mesma – nas personagens. Porém, há resquícios de pessoas conhecidas aqui e acolá e elas surgem-me na mente a mesclá-los. É verdade que muitas reacções perante os dilemas do enredo são baseadas no que eu faria em tal situação, isto especialmente nas personagens principais. Porém, gosto de experimentar outros raciocínios e, nessas alturas, “visto-me” com outro carácter. Ou seja, há algumas cenas em todos os livros onde acabo por decalcar a minha maneira de ser naquela circunstância. Alguns meus amigos dizem que Neferlöen, a protagonista d’O DÉCIMO TERCEIRO PODER, tem muito de mim. Nego-o. Mas de vez em quando com pouca convicção, especialmente quando me lembro que nos primórdios da sua criação optei pela personagem feminina por me sentir mais à vontade em debruçar-me nesse género. Provavelmente a idade assim o ditava. Entretanto, já experimentei, com reincidência, o oposto e permiti-me ir longe e cultivar outros comportamentos.
 

4. Estás na fase final do último livro das Terras de Corza. Quais são os teus planos para o futuro?

Neste momento estou completamente concentrada no fim da saga. Depois de sete anos dedicada em primeiro lugar às Terras de Corza, pretendo finalizar em grande. Estou extremamente optimista com o que em breve será publicado! Ainda não dediquei o tempo necessário para planear o futuro, mas tenho a certeza que explorarei este género “fantástico / romance histórico” por mais uma, duas ou três obras, sem que constituam uma nova saga. Talvez, em breve, até experimente a magia e o sobrenatural que não usei nas Terras de Corza, mas sem promessas

 
5. Como vês o panorama do fantástico em Portugal?

Em crescendo. Felizmente. Aos poucos, os nomes portugueses surgem ao lado dos estrangeiros que marcam as prateleiras do género. Mas há ainda muito por fazer: como tantas vezes foi dito e tem toda a lógica que eu repita, precisa-se de mais confiança nos livros nacionais e mais divulgação sem reservas. Porém, os números contam muito e as barreiras surgem também nessa vertente; uma coisa é um original desconhecido a ser lançado, outra um livro que já goza de uma máquina comercial (que, para além de facilitá-la, é já em si uma publicidade) e que provou sucesso de vendas noutras bandas. A internet tem permitido chegar a mais longe, mas não é suficiente.
 

6. A pergunta clássica: que autores e livros são os teus preferidos e quais mais te influenciaram?

Há diferentes autores para diferentes fases da vida. Lembro-me que, por volta dos nove anos, Agustina Bessa-Luís marcou-me muito. A minha entrada no mundo fantástico foi aos onze/doze anos, depois fascinei-me com livros alusivos à mitologia nórdica e o pedestal foi ocupado pela celta, através de Marion Zimmer Bradley e Juliet Marillier. Mais tarde, o romance histórico encheu-me o olho. Actualmente, nomeio como favoritos Tolkien pelo mundo complexo e completo que criou, Gabriel García Marquez pela beleza da sua escrita e Umberto Eco porque adoro as suas histórias e como de vez em quando cruza a ficção fantasiosa com o que é histórico. Livros preferidos são difíceis de apontar, pois, como comecei a dizer, têm sentido no momento em que foram lidos e hoje já não colheriam o mesmo efeito. Mas para satisfazer a questão, avanço com “Baudolino” de Umberto Eco.
 

7. Que mensagem deixarias a alguém que estivesse a tentar enveredar pelo mundo da escrita?

Basta de tentar e enveredem! Leiam muito e escrevam ainda mais. Procurem a opinião de alguém, assim que estiverem mais satisfeitos com o que fizeram, para ouvirem “o outro lado” (o temível, impiedoso, estripador leitor isento!), pois ajudará na evolução, que não deve basear unicamente na auto-crítica. Servindo de exemplo, eu recorri à minha irmã, porque não tinha coragem para mostrar a mais ninguém. E pratiquem muito. Já disse para lerem? Aprendemos muito com a leitura: descobrimos maneiras diferentes para expressar sensações, conhecemos mundos que estão distantes por outra via qualquer e, objectivamente falando, educamos o nosso léxico.

8. E uma mensagem para os leitores em geral?

As Terras de Corza são uma saga que tem portas abertas para todo o tipo de leitor. Já recebi e-mails de simpatizantes de doze/treze anos e, pouco depois do lançamento d’A COROA DE SANGUE, chegou a casa uma carta com uma caligrafia belíssima de uma leitora que se afirmou fã dedicada e que já contara 85 Primaveras. Porque, para além do facto de que cada um tem de procurar a leitura adequada aos seus gostos e todos somos diferentes, esta saga não se baseia numa única personagem, nem apenas num propósito: são quatro livros com quatro intrigas diferentes, quatro protagonistas de perfis diversos, do mais heróico ao mais quebradiço que precisa da força dos outros para chegar à glória final, e cenários muito contrastantes separados por séculos e culturas. A única constante é tudo se passar nas Terras de Corza e o que daí advier, designadamente, o legado, a “História”. Alguns detalhes são abordados nos vários livros de passagem, porém, a leitura separada e numa qualquer ordem que não a das publicações não encontrará problemas; a menos que o leitor pretenda conhecer a evolução da autora, ao longo destes sete anos…
Para os que já leram os meus livros, fica aqui assente que o último reserva muitas sensações fortes e que, sem dúvida, é um clímax sublime para a saga.
Aos leitores em geral deixo uma palavra de incentivo para a aposta no género fantástico e no do romance histórico e que não olhem duas vezes se o nome do autor for português. E um dia destes experimentem as Terras de Corza!

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